UMA VOLTA DE 360 GRAUS

abril 25, 2017

Inês Lopes

Em Outubro do ano passado, o David e eu decidimos que a melhor forma para atingirmos uma vida balançada a nível pessoal e de trabalho, seria se eu me despedisse do meu emprego e ficasse em casa com a Eva.

Apesar de ter sido uma decisão repentina, obviamente que não foi tomada da noite para o dia e houve bastantes factores a ponderar primeiro. Depois de anunciar a nossa decisão à empresa onde estava a trabalhar, família e amigos, muitas questões nos foram colocadas, por isso achei que valia a pena falar-vos um pouco desta questão.

Além disso, considero que ainda exista uma ideia bastante errada e um estigma à volta da questão das mulheres que ficam em casa e achei por bem abordar este assunto aqui no blog.

Um pequeno disclaimer antes de começarmos. Acredito que nunca se deve julgar um pai pela forma como este acha correto educar o seu filho ou viver a sua própria vida, a partir do momento em que ninguém seja magoado (acho que essa parte é óbvia). Não estou de todo a tentar dizer o que os pais por aí fora devem ou não fazer. Esta é simplesmente a minha experiência pessoal e o que tem resultado da melhor forma para nós os três cá em casa. Eu respeito as crenças de cada um e por isso agradeço que respeitem as minhas da mesma forma.

Rebobinando um pouco no tempo

Eu estava a trabalhar na mesma empresa já à bastante tempo. Apesar de gostar da minha equipa e da experiência geral de conhecer e criar laços com pessoas provenientes de todos os cantos do mundo, a verdade é que eu detestava a maior parte dos meus dias lá.

O trabalho era super simples, uns dias mais stressante que os outros, mas após alguns anos a fazer o mesmo todos os dias, não só uma pessoa se habitua e começa a levar tudo nas calmas, como começa também a morrer de tédio.

Eu cheguei a esse ponto. Entendi que não estava a evoluir de qualquer forma, pelo contrário, tudo o que até então tinha aprendido não estava de todo a ser colocado em prática. Senti que não haviam mais oportunidades disponíveis para mim naquele local e que estava simplesmente a gastar o meu tempo e energia preciosos em algo que não me fazia de todo feliz. Tornou-se completamente num "trabalho apenas pelo dinheiro", onde nem ao menos me sentia minimamente reconhecida.
Com isto, não estou de todo a tentar mandar a baixo a empresa. Entendo perfeitamente que empresas grandes tenham de fazer o que têm de fazer e continuo bastante agradecida pela oportunidade e experiência, bem como por todas as coisas boas que me vieram por arrasto.

Ao mesmo tempo, o David estava a trabalhar finalmente mais próximo a casa mas também a sentir-se bastante aborrecido e desmotivado com o trabalho diário, uma vez que não apresentava os desafios que pretendia.

A mudança

O David decidiu mudar de emprego e assim o fez. Começou a trabalhar numa empresa que gosta, num projecto interessante e que o deixou entusiasmado e voltou novamente a ter tarefas diárias desafiantes. Com esta mudança, implicou também começar a trabalhar longe de casa.

Eu também voltei ao trabalho, depois de uma pausa breve em licença de maternidade. Toda a minha equipa estava diferente. As tarefas diárias foram reduzidas ao mais básico. Mais de metade da minha equipa desapareceu e os que restaram estavam completamente desmotivados com toda esta situação. Tudo isto não fazia mal. Na verdade eu já estava a espera que tal acontecesse. Mas com todas estas mudanças, o meu horário de trabalho também voltou aos turnos aleatórios, com fins de semana à mistura e por aí fora.

Nasce então o problema

A Eva, com apenas quatro meses de idade, estava a passar dias inteiros na creche. Quatro dias por semana, das 7h00 da manhã até às 6h30 da tarde. Estava a ser criada por outras pessoas, junta com outras crianças de diversas idades, no meio de barulho constante e a passar menos de uma hora por dia acordada connosco na maioria dos dias da semana.

Ela tinha problemas em dormir na creche devido ao barulho e estimulo constante ao seu redor e por isso chegava a casa completamente exausta e consequentemente não tinha a mesma qualidade de desempenho que tem hoje.

Com toda esta troca de turnos no meu trabalho, os níveis de stress aumentaram demasiado, não só porque tínhamos de organizar ao minuto os nossos horários de forma a possibilitar conciliar o ir leva-la e busca-la à creche todos os dias, mas também não atrasarmos de todo a chegar ao trabalho. Esta questão era particularmente stressante nos dias em que haviam atrasos nos comboios ou não haviam comboios de todo, pois ficaríamos os dois presos numa cidade longe de casa e da creche. No meio disto tudo, obviamente que a minha produção de leite foi bastante afectada.

A Eva estava a ficar mais próxima às pessoas na creche e menos a nós, o que foi bastante deprimente de perceber.

Alguns dias conseguia vê-la por meia hora, quando lhe dava um banho, vestia o pijama e a deitava. Outros dias, não a chegava sequer a vê-la, uma vez que ela ainda estava a dormir quando eu saía de casa para ir trabalhar e quando voltava ela já estava a dormir. No topo disto tudo, o David estava a levar com uma grande pressão em cima dos ombros. O ter de organizar e fazer tudo sozinho, tratar da Eva de manhã entre a sua rotina pessoal, leva-la à creche, stressar em chegar a tempo ao trabalho e de volta à creche para a ir buscar, e por aí fora.

A pior parte no meio disto tudo é que nós não estávamos de todo a participar na educação da nossa própria filha, uma vez que ela não passava quase nenhum tempo connosco. O facto de ela não conseguir dormir na creche afectou a performance dela, uma vez que assim que chegava a um sitio calmo apenas queria dormir. Tenho a certeza que todos nós sabemos a importância que dormir tem, especialmente no que toca a um bebé ou criança.

A "cereja no topo do bolo" é que a maioria dos nossos ordenados estava a sustentar toda esta situação. Dinheiro que ia direito para à creche, pagando a outras pessoas para que tomassem conta da nossa filha e a educassem por nós.

Ponto final

O David ainda estava no período probatório no novo emprego, mas ambos sabíamos que esta situação já se estava a tornar insuportável para nós os três.

Um dia, enquanto estávamos os dois a trabalhar, recebo uma mensagem "apresenta a tua carta de demissão e saí daí o mais rápido possível".

Apesar de termos falado várias vezes sobre esta hipótese, nunca acreditei que se fosse tornar numa real possibilidade.

Depois de trocarmos umas quantas mensagens de forma a questionar se estaríamos mesmo a tomar a decisão certa, eu disse no mesmo dia à minha gerente e à colega do meu lado, que por sinal me apoiaram incondicionalmente, como sempre. Eu não conseguia parar de tremelicar e mal me conseguia concentrar para acabar o dia de trabalho. Estava perdida de contente, ansiosa e perplexa com tudo o que me estava a acontecer. Não estava a acreditar. Foi tudo surreal!

Depois disto, trabalhei em torno de mais duas semanas (as duas semanas mais longas que passei dentro daquele escritório) e no meu último dia, quando estava a devolver as minhas coisas e dizer o meu último adeus, não conseguia acreditar que estava mesmo a acontecer. Finalmente ia ter a possibilidade de cuidar da minha filha a tempo inteiro! Estar com ela sempre que ela precisasse de mim, vê-la crescer em frente aos meus olhos, ensinar coisas, ajuda-la a crescer de forma serena e harmoniosa e providenciar a minha atenção e dedicação completa. Que mais de natural existe?

Encontrar um bom balanço

A partir daí, comecei a passar os meus dias com a Eva. Apesar da maioria das pessoas lhe gostar de dar o rótulo de "stay-at-home mom" e ainda existir muita gente a menosprezar a importância deste "trabalho a tempo inteiro" posso-vos garantir que não passamos os dias sentadas no sofá a olhar para as paredes, e de facto vejo imenso progresso no comportamento e atitude dela, especialmente quando comparada aos dias em que ela vai para a creche (falarei mais disso num post adiante).

Sim, ela ainda vai à creche. Apesar da nossa decisão, nós sempre tivemos em mente a importância que a interacção com outras pessoas e crianças tem para um crescimento saudável de um ser humano. A diferença é que agora dá para ver que ela realmente gosta de lá estar. Ela vai dois dias por semana, durante umas horas, e eu noto que desde esta mudança, ela já não se importa de me ver ir embora, porque sabe que passadas umas poucas horinhas eu estou de volta para a ir buscar e leva-la de novo para uma atmosfera calma onde ela pode dormir a sesta à vontade, brincar, e fazer todo um tanto de outras actividades também.

No meio disto tudo, o David e eu não estamos mais sobre um stress constante. Não precisamos de nos preocupar tanto com horários, transportes, chegar a tempo ao trabalho e à creche. Podemos simplesmente viver uma vida relaxada e realmente aproveitar o tempo que temos juntos. Cada um de nós tem uma tarefa importante, que gostamos de concretizar, e que resulta numa vida em família balançada, harmoniosa e feliz.









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2 comentários

  1. Adorei este post e agradeço por o ter escrito.
    Dou muitas vezes por mim a pensar se estou certa ou errada.
    Estou com a minha bebé de 9 meses em casa e não me arrependo nada. Vejo tudo em primeira mão, cuido dela, deixo-a descansar quando quer, come com calma. Mas como tudo tem um preço, vivo com a ajuda dos meus pais que nos pagam a renda da casa e me ajudam pois o ordenado do pai não chega para tudo. Num país onde evoluir não passa de uma utopia, ele não consegue fazer mais e eu debato-me, a toda a hora, com o que devo fazer. Volto a trabalhar a tempo inteiro e pago a creche, restando-me alguns "trocos"?
    Inicio um negócio meu que me permita po-la na creche, tal como você, em horário reduzido permitindo-me acompanha-la? que negócio?
    Não sei o que fazer e sinto sempre o peso dos canudos, da licenciatura e mestrado que tanto custaram aos meus pais pagar nos ombros. Mas também não quero ser a mãe que está uma hora por dia com a filha.
    Obrigada. Talvez eu não esteja tão errada...

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    Respostas
    1. Olá Catarina! Muito obrigada pelo teu comentário e por partilhares desta forma as tuas incertezas e medos.
      O facto de não te arrependeres por tomares essa decisão significa que não tens dúvidas do que realmente é importante para ti. Não deixes que pressão alheia ou canudos te distraíam do que realmente queres. Eu compreendo-te na perfeição, acredita. Já pensaste talvez trabalhar em part-time? Seria uma opção viável para vocês assim? O ideal é sempre parar e fazer contas (literalmente) e ver o que realmente compensa. Talvez uma lista de pros e contras ajude também a perceber o que realmente funciona melhor para vocês, e uma vez que tens a ajuda dos teus pais podes sempre inclui-los nessa discussão e assim vai ajudar a tomares a melhor decisão. Em tudo na vida é uma questão de experimentar para ver o que dá certo. Mas nunca te sintas menos porque tens um canudo que não estás a usar se o que realmente queres é o que estás a fazer :) Espero que tenha ajudado de alguma forma. Se quiseres falar mais sobre este assunto (ou outros) em privado fica à vontade para me mandar uma mensagem através do link "contacto" no topo da página do blog.
      Beijinhos

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