ANSIEDADE NÃO É UM RÓTULO

Inês Lopes

Tenho a sensação que à medida que os anos passam, mais pessoas aparecem ou se auto-diagnosticam com problemas de ansiedade. Talvez por causa da media envolvente, os diversos tipos de poluição, o viver cada vez mais num mundo online e menos no mundo real? Talvez. Talvez não. Talvez esteja só tudo na minha cabeça.

É tão fácil olhar para alguém e julgar apenas pela aparência. Mas enquanto te pode parecer que tenho tudo no lugar e zero problemas quando passo por ti na rua, na minha cabeça passa-se uma história completamente diferente.

Inês Lopes

Demorei algum tempo até perceber o porquê de não me sentir confortável nem gostar de estar em espaços com muita gente, comer em publico, interagir com outras pessoas ou ser olhada desde o fundo da sala. Sempre tive problemas a chatear-me a cabeça, desde que me lembro de existir, mas a ansiedade é uma coisa completamente diferente. É uma coisa que se torna bastante difícil de esconder. Pode vir a qualquer momento, de qualquer lado e sem razão aparente.

Não me recordo quando tive o meu primeiro ataque de ansiedade, mas sei que se veio a tornar parte da minha existência já à bastante tempo. Ataques de ansiedade e ataques de pânico são normalmente entendidos como a mesma coisa de uma forma bastante errada, porque na minha opinião não têm absolutamente nada a ver. Já tive ataques de pânico no passado e considero-os bem, mas bem diferentes, por isso podemos começar por colocar isso de parte.

Ines Lopes

Como é que um ataque de ansiedade se faz sentir? Para mim, é como se fosse desmaiar. Posso estar bem num momento e no próximo o meu coração dispara a mil por segundo, a minha pele perde a cor, a visão fica desfocada, ouço tudo como se estivesse submersa em litros de água e só tenho vontade de me enfiar no buraco mais fundo até que passe. É como sentir medo de sentir medo em público. Como se todo o meu controlo me fugisse entre os dedos. Como se o tempo parasse por aquilo que parece uma eternidade até voltar aos meus sentidos novamente. Tudo isto de uma só vez. Mas a pior parte é a antecipação. É saber que está prestes a acontecer e não vou poder controlar, grande maioria.

Cheguei à conclusão, com experiências passadas, que a ansiedade não é de todo um drama. Claro que é uma merda. É um problema, de todas as formas. Mas quanto mais olhava para ela como um grande monstro, maior era o poder que lhe dava.

Acho que um grande medo que atormenta as pessoas com ansiedade é o julgamento dos outros. Mas toda a gente está demasiado dentro da sua própria cabeça para sequer se preocuparem ou prestarem atenção na rua, por isso...

Ines Lopes

Por isso, comecei-me a enfrentar a mim mesma nesse sentido. Forço-me a sair de casa, mesmo que apenas para locais mais calmos, tenho de enfrentar pessoas pelo caminho na mesma. Ouvir música ou apenas concentrar-me num ritmo  ou pensamento na minha cabeça ajuda-me bastante a dispersar ansiedade. Tento ao máximo não pensar demasiado em coisas simples que por norma me podem deixar mais nervosa, como fazer telefonemas importantes. Tem de ser feito e ninguém mais pode fazer por mim. O que é que pode acontecer? Enganar-me? Já aprendi as mais valiosas lições com erros cometidos no passado.

Aprendi também a deixar os meus complexos de parte e, especialmente se estiver num ambiente em que sei que posso ter um ataque de ansiedade, simplesmente digo a quem quer que esteja comigo para que dessa forma saibam que só precisam manter a calma e dentro de alguns minutos passa e fica tudo bem de novo.

As primeiras vezes que tive ataques de ansiedade fiquei petrificada. Especialmente sozinha ou em locais públicos, costumavam-me assustar à grande.

Não tenho grande forma de lidar com a ansiedade. Uns dias espero que passe, outros dias tento ao máximo levar a mente para outro lugar qualquer e esperar que me traga de volta à realidade o mais rapidamente possível.

A última vez que tive um ataque de ansiedade estava dentro de um avião. Acredita quando digo que não tenho qualquer medo de voar, pelo contrário até aprecio bastante. Mas quando me realizei de que estava num ambiente fechado, sem ar natural para respirar ou qualquer hipótese de sair dali para fora, a minha mente simplesmente fez o favor de panicar no meu lugar. Mais uma vez, sem qualquer razão aparente, apenas aconteceu. Estava tudo calmo ao meu redor, tinha o David e a Eva comigo. Pedi ao David para segurar na Eva, fechei os olhos, abanei um pedaço de papel à frente do rosto e respirei fundo na tentativa de relaxar, enquanto pensava em ficar bem o mais rápido possível para estar de novo com eles. Ajudou imenso e, novamente, dentro de uns minutos estava tudo bem e de volta ao normal.

Wit Konijn

Procurando online sobre este tema apenas consegui encontrar vídeos hiper dramáticos com uma musiquinha super triste no fundo, explicando quão mau a ansiedade é, sem dar qualquer tipo de solução aparente. Não estou aqui para dar soluções também, porque não sou nenhuma expert na matéria, apenas sei o que sinto. Mas espero que de uma forma ou de outra, partilhar a minha experiência possa ajudar outros a entender melhor a questão e a tirar o grande tabu deste assunto.

Como sempre, se tiveres alguma pergunta ou preocupação deixa nos comentários. Se preferires também podes entrar em contacto directo comigo através da página de contacto.



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